O turismo de safári no Brasil vem se consolidando como um segmento relevante dentro do turismo de natureza, acompanhando transformações importantes no comportamento do viajante contemporâneo. Distante do modelo clássico associado aos safáris africanos, a experiência brasileira se estrutura a partir da observação responsável da vida silvestre, da diversidade de biomas e da integração entre conservação ambiental e atividade turística.
Segundo o relatório Brazil Safari Tourism Market, elaborado pela Future Market Insights, o mercado brasileiro de turismo de safári foi estimado em aproximadamente US$ 5,4 bilhões em 2025, com projeção de alcançar cerca de US$ 10,8 bilhões até 2035. A taxa de crescimento anual composta indicada pelo estudo é de 7,2%, o que sinaliza um avanço consistente ao longo da próxima década. Esses números posicionam o segmento como uma das vertentes mais promissoras do turismo de natureza no país.
Esse crescimento está diretamente relacionado à ampliação da demanda por experiências imersivas em ambientes naturais, à valorização da biodiversidade como ativo turístico e à busca por viagens associadas a princípios de sustentabilidade. O estudo aponta que aproximadamente 60% do mercado é composto por turistas domésticos, enquanto 40% correspondem a visitantes internacionais, sobretudo oriundos da América do Norte e da Europa. Esse dado revela um equilíbrio importante entre mercado interno fortalecido e crescente inserção internacional do Brasil como destino de vida silvestre.
Outro aspecto relevante identificado no relatório é o grau de digitalização do setor. Cerca de 59% das reservas de experiências de safári no Brasil já são realizadas por canais online, refletindo um perfil de turista mais autônomo, bem informado e interessado em produtos personalizados. Essa tendência exige dos destinos e empreendimentos maior clareza na comunicação, qualificação da oferta e organização dos produtos turísticos, especialmente em segmentos especializados como o turismo de natureza.
No contexto brasileiro, o safári assume múltiplas formas. Ele se manifesta por meio de observação de grandes mamíferos, cetáceos safáris fluviais, caminhadas guiadas, trilhas interpretativas, experiências fotográficas e atividades associadas à observação de aves. Essa diversidade decorre da própria configuração territorial do país, que abriga biomas distintos e complementares, como o Pantanal, a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica e zonas úmidas costeiras.
O Pantanal se destaca no relatório como um dos territórios mais consolidados para esse tipo de experiência, em função da alta densidade de fauna, da previsibilidade de avistamento de espécies chaves e da presença de empreendimentos especializados. A Amazônia, por sua vez, aparece como um território de grande potencial, sobretudo para safáris fluviais e observação de fauna associada a ambientes florestais, embora ainda enfrente desafios relacionados à infraestrutura, acesso e ordenamento da visitação.
Outros biomas brasileiros surgem como áreas estratégicas para a diversificação do produto safári no país, especialmente quando associados ao turismo de observação de aves. A avifauna brasileira, uma das mais diversas do mundo, permite a integração entre safári e birdwatching, ampliando o tempo de permanência do visitante, qualificando a experiência e fortalecendo a relação entre turismo e conservação. Essa convergência é apontada por especialistas como um dos diferenciais mais relevantes do Brasil no cenário internacional do turismo de vida silvestre.
Apesar das projeções positivas, o relatório também evidencia desafios estruturais que precisam ser enfrentados para a consolidação do segmento. Questões como capacitação profissional, padronização mínima da oferta, melhoria da infraestrutura de visitação e maior integração entre políticas públicas e iniciativa privada são apontadas como fatores decisivos para a maturidade do mercado. Ao mesmo tempo, esses desafios representam oportunidades claras para destinos que buscam estruturar sua oferta de turismo de natureza de forma planejada, sustentável e alinhada às tendências globais.
A leitura dos dados apresentados pela Future Market Insights indica que o turismo de safári no Brasil não deve ser compreendido como um produto isolado, mas como parte de um movimento mais amplo de valorização do turismo de natureza, da biodiversidade e das experiências responsáveis. O crescimento projetado para a próxima década reforça o papel estratégico desse segmento na diversificação da oferta turística nacional e na promoção de modelos de desenvolvimento territorial associados à conservação ambiental.
Mais do que replicar modelos externos, o desafio brasileiro está em consolidar um safári com identidade própria, baseado na diversidade biológica, na qualificação da experiência e no fortalecimento de territórios que têm na natureza seu principal ativo.
Diante desse cenário de crescimento e transformação, compreender os dados de mercado e interpretar suas implicações territoriais torna-se essencial para destinos, gestores públicos e empreendimentos que atuam ou desejam atuar no turismo de natureza. O turismo de safári, quando planejado de forma responsável e integrado à conservação da biodiversidade, representa uma oportunidade concreta de qualificar a oferta turística brasileira e fortalecer economias locais.
Para avançar nesse debate, é fundamental investir em planejamento estratégico, estruturação de produtos, capacitação técnica e integração entre turismo, meio ambiente e comunidades locais. A consolidação do Brasil como referência em turismo de vida silvestre passa pela leitura qualificada do mercado e pela construção coletiva de modelos sustentáveis, consistentes e alinhados às vocações de cada território.