Quase R$ 5 milhões gerados pelo turismo de observação de aves: o impacto do aviturismo na economia do Mato Grosso do Sul

O turismo de observação de aves, conhecido internacionalmente como birdwatching ou aviturismo, vem se consolidando como um dos segmentos mais promissores do turismo de natureza em todo o mundo. Essa atividade combina conservação ambiental, educação e geração de renda, demonstrando que a biodiversidade pode ser também um ativo econômico relevante para diferentes territórios. No Mato Grosso do Sul, esse movimento vem se fortalecendo nos últimos anos, impulsionado pela riqueza de espécies presentes no estado e pelo avanço de políticas públicas voltadas à estruturação do turismo sustentável.

Um estudo publicado no livro “Governança e Inovação no Turismo: Perspectivas no Mato Grosso do Sul”, resultado da pós-graduação em Governança e Inovação no Turismo da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), analisou o cenário atual do aviturismo no estado e suas perspectivas de crescimento, tendo como estudo de caso a RPPN Buraco das Araras, localizada no município de Jardim, na região da Serra da Bodoquena.

A pesquisa demonstra que o Mato Grosso do Sul possui um enorme potencial para o desenvolvimento do turismo de observação de aves. Atualmente, o estado registra 678 espécies de aves, o que representa aproximadamente 34% de toda a avifauna brasileira, colocando o território sul-mato-grossense entre os mais ricos do país em biodiversidade de aves.

Essa diversidade está associada à presença de diferentes biomas, especialmente o Pantanal e o Cerrado, além de áreas de transição ecológica. Esse cenário atrai turistas nacionais e internacionais interessados em observar ou fotografar espécies raras, endêmicas ou migratórias, transformando a biodiversidade em um diferencial competitivo para o turismo de natureza.

No cenário global, o crescimento da atividade também é expressivo. Estudos de mercado indicam que o turismo de observação de aves pode movimentar até US$ 95,2 bilhões até 2030, com crescimento médio anual de aproximadamente 6,2%, impulsionado pelo interesse crescente por atividades ligadas à natureza e à conservação ambiental.

Em alguns países, o impacto econômico do birdwatching já é bastante evidente. Nos Estados Unidos, por exemplo, 96,3 milhões de pessoas praticaram observação de aves em 2022, sendo que 42,6 milhões realizaram viagens dedicadas à atividade, gerando um mercado expressivo relacionado a equipamentos, hospedagem, transporte e serviços especializados. No Brasil, estima-se que existam mais de 300 mil observadores de aves, muitos deles com alto nível de escolaridade e forte interesse por conservação ambiental. Pesquisas indicam que cerca de 73% desses praticantes gastam com transporte, 67% com hospedagem e alimentação e 57% com equipamentos fotográficos, enquanto aproximadamente 20% investem mais de R$ 2 mil em equipamentos, evidenciando o potencial econômico do segmento.

Esses números ajudam a explicar por que diversos destinos ao redor do mundo passaram a investir na estruturação do aviturismo como estratégia de desenvolvimento territorial. No Mato Grosso do Sul, o poder público vem desempenhando um papel importante nesse processo, especialmente por meio das ações da Fundação de Turismo do estado (Fundtur-MS).

Nos últimos anos, a Fundação de Turismo do MS, passou a investir de forma mais estruturada na promoção do turismo de observação de aves. Entre 2021 e 2024, por exemplo, os investimentos diretos em campanhas de promoção turística relacionadas ao segmento passaram de R$ 64.900 para R$ 84.200, incluindo divulgação em aeroportos, revistas especializadas e campanhas digitais voltadas ao turismo de natureza.

Além disso, o estado também investiu na participação em feiras e eventos internacionais especializados. A presença na Colombia Birdfair, uma das principais feiras de observação de aves da América Latina, contou com investimento aproximado de R$ 20 mil, enquanto a participação na Global Birdfair, considerada o maior evento mundial do setor, recebeu investimento de cerca de R$ 50 mil, ampliando a visibilidade do destino no mercado internacional. Outra estratégia importante tem sido a realização de famtours com operadores turísticos, que são viagens organizadas para que agentes e operadoras conheçam os destinos e passem a comercializá-los. Em 2024, duas ações desse tipo somaram aproximadamente R$ 50 mil em investimentos, com previsão de ampliação para R$ 100 mil em 2025. A capacitação profissional também vem sendo fortalecida. Programas de treinamento para guias, condutores e monitores ambientais receberam cerca de R$ 45 mil em investimentos, contribuindo para qualificar a experiência turística e ampliar a participação das comunidades locais na atividade. Além das ações de promoção e qualificação, o estado também tem investido na construção de uma base institucional e legal para o desenvolvimento do segmento. Entre essas iniciativas está a criação do Dia Estadual de Observação de Aves, celebrado em 28 de abril, além da instituição do título de Cidade Protetora das Aves, voltado aos municípios que desenvolvem políticas de proteção da avifauna e incentivo ao turismo de observação. O Mato Grosso do Sul também aprovou legislações que reforçam a identidade ambiental do estado, como o reconhecimento da arara-azul como ave símbolo do estado e do tuiuiú como símbolo do Pantanal, fortalecendo o marketing territorial associado à biodiversidade. Eventos também desempenham um papel importante nesse processo. A participação do estado no Avistar Brasil, considerado o maior encontro de observação de aves do país, vem crescendo ao longo dos anos. Os investimentos estaduais no evento evoluíram de cerca de R$ 4.500 em 2007 para aproximadamente R$ 130 mil em 2025, evidenciando o aumento da importância estratégica desse segmento para a promoção turística do estado. O estudo também analisou o caso da RPPN Buraco das Araras, considerada um exemplo de sucesso na integração entre conservação ambiental e turismo. A área, que já foi degradada no passado, passou por um processo de recuperação ambiental e hoje se tornou um dos principais destinos de observação de aves do Brasil. Os dados analisados mostram um crescimento significativo da atividade turística no local.

Entre 2021 e 2024, a receita gerada pelas visitas na reserva passou de aproximadamente R$ 2,4 milhões para R$ 4,78 milhões, praticamente dobrando em apenas três anos. No segmento específico de observação e fotografia de aves, o crescimento foi ainda mais expressivo. O faturamento dessa atividade passou de R$ 33.696 em 2021 para R$ 284.160 em 2024, representando um aumento superior a 743% no período analisado. Esses resultados demonstram que o aviturismo possui grande capacidade de gerar valor econômico, especialmente quando associado a experiências especializadas voltadas a fotógrafos e observadores experientes. Esse público costuma viajar longas distâncias, permanecer mais tempo nos destinos e investir em serviços turísticos qualificados.

Outro dado relevante apresentado na pesquisa é que o Mato Grosso do Sul possui mais de 70 áreas identificadas com potencial para a observação de aves, muitas delas ainda em processo de estruturação turística. Isso significa que existe uma enorme oportunidade para a criação de novas rotas de aviturismo, fortalecimento de destinos emergentes e ampliação da participação das comunidades locais na cadeia produtiva do turismo.

Diante desse cenário, o turismo de observação de aves se apresenta como uma estratégia concreta de desenvolvimento territorial sustentável. Ao conectar turismo, conservação ambiental, educação e economia criativa, o aviturismo demonstra que proteger a natureza também pode gerar oportunidades econômicas e fortalecer as identidades locais.

Os resultados da pesquisa indicam que, com planejamento adequado, continuidade dos investimentos públicos e fortalecimento da governança turística, o Mato Grosso do Sul tem todas as condições para se consolidar como um dos principais destinos de observação de aves do Brasil e da América do Sul, transformando sua extraordinária biodiversidade em um motor de desenvolvimento sustentável.

Para ler o artigo completo – AVITURISMO NO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL CENÁRIO ATUAL E PERSPECTIVAS A PARTIR DO ESTUDO DE CASO DA RPPN BURACO DAS ARARAS


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